Estender o sol na janela

indio06

Era farto, era rico, era lindo de se ver.

Tantas cores, tantos rios, tantos frutos fazia nascer. As fronteiras, que fronteiras?  ”… ‘Terra é presente que devemos preservar…”

Gente tinha nome de bicho, nome de árvore, nome de Deuses. O tal boitatá é uma cobra de fogo “boiguaçu“, que aparece deslizando pelas matas, espalhando clarões na noite. Quando morre, espalha uma luz que tem na barriga pela escuridão da noite carregada pelo vento. Essa luz é proveniente dos olhos dos animais de que ela se alimenta principalmente dos gatos, que ela digere, mas conserva a luz. Às vezes o boitatá anda a pé, como um fantasma branco e transparente, de olhos grandes e furados, assustando animais e viajantes.

O boto é o mais importante habitante encantado do rio Amazonas. Nas altas horas da noite, propriamente à meia noite ele se transforma em gente.

Anda em cima dos paus das beiradas do rio, de preferência sobre os buritizeiros tombados nas margens.

Veste roupa branca e usa um chapéu branco para ocultar uma abertura no alto da cabeça por onde sai um forte cheiro de peixe e hálito de maresia. Ele aparece nas festas tão elegante que encanta e seduz as donzelas. Dança a noite toda com as mais jovens e mais bonitas da festa. Sai com elas para passear e antes da madrugada pula na água e volta à forma primitiva de peixe, deixando as moças sempre grávidas.

Além de sedutor e fecundador é conhecido também como o pai das crianças de paternidade desconhecida, pois as mães solteiras o acusam de ser o pai de suas crianças.

O Boto-homem é obcecado por mulheres, sente o cheiro feminino a grandes distâncias. Para evitar que ele apareça esfrega-se alho na canoa, nos portos e nos lugares onde ele gosta de aparecer.

Tem a Caipora que é um menino escuro pequeno e rápido, cabeludo e feio, fuma cachimbo, e sua função é proteger os animais da floresta, os rios, as cachoeiras.

Vive sondando as matas montado num porco, sempre com uma longa vara na mão. Quando o caçador se aproxima o caipora pressente sua chegada através do vento que lhe agita os cabelos. Então sai a galope no seu porco fazendo o maior barulho para espantar os veados, os coelhos, as capivaras e outros animais de caça. Às vezes, o caçador, sem ver direito, corre atrás do próprio caipora que montado em seu porco faz ziguezagues pelo mato até perder-se de vista.

O Curupira é um ser do tamanho de uma criança de seis a sete anos, anda nu, é peludo como o bicho preguiça, tem unhas compridas e afiadas, o calcanhar para frente e os pés para trás.

Toma conta da mata e dos animais mora nos buracos das árvores que tem raízes gigantescas, muito comuns da floresta amazônica.

Ele ajuda os caçadores e os pescadores que fazem o seu pedido e em troca oferecem-lhe cachaça, fósforo e fumo. Este ofertório é para que o indivíduo tenha fartura nas caçadas, pescarias e roçados.

As pessoas que não tem devoção para com ele sentem medo, enjôo e náuseas a quilômetros de distância dele. Com essas pessoas ele brinca fazendo com que elas se percam na mata.

Para se livrar do curupira deve-se cortar uma vara fazer uma cruz e colocar em um rolo de cipó tumbuí, bem apertado. Ele vê esse objeto e procura desmanchar o enrolado, enquanto ele fica entretido a desmanchar o enrolado a pessoa tem tempo para fugir.

Numa aldeia indígena um casal teve um filho muito bonito, bom e inteligente. Era querido por toda a tribo. Por isso Jurupari, seu pai, começou a ter raiva dele, até que um dia transformou-se em uma cobra, permanecendo em cima de uma árvore frutífera.

Quando o menino ainda criança foi colher um fruto desta árvore, a cobra atirou-se sobre ele e o mordeu. Sua mãe já o encontrou sem vida. Ela e toda tribo choraram muito. Enquanto isso, um trovão rebombou e um raio caíram junto ao menino. Então a índia-mãe disse: – É Tupã que se compadece de nós. Plantem os olhos de meu filho, que nascerá uma fruteira, que será a nossa felicidade. – Assim fizeram e dos olhos do menino nasceu o guaraná.

Está no sangue dos povos desse país e do mundo a história desse povo. Mas se carregamos a história deles junto conosco, por que insistimos tanto em valorizar e venerar as culturas invasoras que certo dia fizeram deles escravos e adeptos a outros valores?

Não estou reforçando uma idéia de vingança nem tão pouco de rancor. Mas para que cada um entenda que essas tribos passaram e ainda passam por massacres, desvalorização e exclusões sociais.

Enquanto muitos de nós assistimos a aquela novelinha das Índias mostrando o lado A, os dalits limpinhos e a Índia como um pólo turístico e concentrado na riqueza, nos valores e tradições, do nosso lado vivem pessoas que não têm um teto por decretos de terras, vivem totalmente excluídas e envergonhadas da sociedade, são mortos injustamente por aqueles que discursam que a demarcação de terras estaria reduzindo a quantidade de terras disponíveis para a agricultura e outras atividades econômicas, resultando em escassez de terras para os trabalhadores rurais não-indígenas, buscam oportunidades no mercado de trabalho, e mesmo assim mantêm seus costumes, lutam por seus direitos e buscam reconhecimento da opinião pública. Aqueles que eram o leito e o colo dessa terra um dia, hoje são ” os lixos e restos” dos restos, dos restos do que chamados de Brasil… Eles esperam pela reforma agrária, pela demarcação enquanto milhares deles se vão.. Um decreto pode ser rasgado, queimado e anulado. E uma vida? Uma história?

Isso não pode ficar assim. Democracia?  Um pedido para que todos se movam e tirem as vendas dos olhos nesse dia 7 de setembro.

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