Identidade

 Após duas horas de caminhada sentei no gramado para amarrar o cadarço do meu tênis, quando me deparei ao meu lado, um indivíduo de cabelos longos, roupas largas, sementes de algumas plantas que envolviam o seu pescoço, seu pulso e nas mechas de seus cabelos faziam dele uma figura singular.

Por culpa de um espirro meu, sua meditação fora interrompida e no pedido de desculpa, começamos a conversar.

Enquanto a minha preocupação focava o ego, a dele era o conjunto, era o social e principalmente a interação entre o homem e o meio ambiente. Naquele gramado ele me fez voltar a 40 anos atrás no mesmo gramado com aproximadamente 1 milhão de pessoas ao nosso redor.

Era uma espécie de show e o artista principal éramos nós. Vi pessoas dançando nuas, outras se amando em plena luz do dia. Sons de guitarra soavam como um coral com fome de protesto, de mudança, de paz e mais, muito mais amor. Gritei, dancei, pulei e minha mente se preencheu mais do que ócio criativo. O meu novo colega era um garoto despreocupado e desprendido de qualquer obrigação e objetos. Conheci então, a Jenis, o Jimi, Santana, a galera do The Who e tive a oportunidade de quebrar uma guitarra ao som de ”my generation”.

Foi incrível, estava sendo, mas voltamos.

Abri meus olhos. Um senhor com mais ou menos 60 anos sorria para mim, era o meu colega! Mas seus cabelos ainda eram compridos, suas roupas ainda folgadas e a sua alma ainda transpareciam paz e amor.

Eu o abracei, me virei e voltei a caminhar. Nunca mais o vi, nem sei seu nome. Depois daquele dia passei a ver o mundo e os indivíduos como elementos únicos. Ao nascermos recebemos a estrutura básica para a nossa formação a partir da família. Logo após, o ambiente escolar será outro fator de influência, pois ele irá trocar conhecimentos, informações e adquirir sabedoria para se tornar um cidadão consciente. Mas será também o contexto histórico que influenciará cada um. Hoje o mundo não é mais bipolar e sim globalizado. Somos uma nação miscigenada, um mundo colorido repleto de culturas que a todo instante se envolvem. Ontem jovens entravam em conflitos políticos e buscavam mudanças. Através da música e de qualquer manifestação artística queria transmitir uma mensagem, e mobilizar uma geração. Hoje eles se engajam em questões ambientais, fazem das artes um cenário alternativo e autêntico com diversas vertentes seja em um aeroporto com milhares de pessoas dançando em manifesto da rotina, do caos e do stress cotidiano, seja em um desfile de moda em que algum estilista resgate a cultura popular de seu país nas roupas e acessórios.

Depois dessa grande aventura senti uma grande nostalgia não vivida!