Convite


Terra dos gritos do Ipiranga, das conquistas a braço forte,salve, salve pátria dourada! Terra da bananeira, dos batuques dos tambores vindos da senzala e que fazem seus sons, danças, lutas e glórias refletirem nos ecos de nossas identidades. Terra do manguezal, dos reis do cangaço, dos canibais, guaranis. Terra que faz nascerem rios, lagos e oceanos. Terra que por um lado fora o berço da burguesia e que adormecia sobre sacos de café e dinheiro, por outra eram atormentados com muito barulho por toda a paulicéia desvairada, novos poetas, novas rimas, novos versos. Queriam romper com o passado e apresentar o Brasil das letras ao Brasil das calçadas. Transformar as cidades em grandes selvas. Serem índios, negros, imigrantes. Serem gritos, espantos, impactantes!
Terra dos segredos da mocidade, da ousadia, da liberdade presentes nas notas de um piano e um violão. Terra dos causos narrados em modas de viola que ilumina e faz renascer cantigas, histórias de nossos antepassados. Terra que um dia fora vendada pela censura, terra de rebeldes e malditos, terra de Deus e o Diabo na terra do sol.
Terra das conversas em botequins, da boemia, das rodas de samba nas esquinas, ruelas, nos morros, quintais… Terra abraçada por Cristo e abençoada por todos os santos, anjos, deuses e orixás.
Nessa terrinha que pisamos no chão feito por nossos ancestrais, que em alguma dimensão observam e debruça suas lágrimas sob a bandeira que representa o verde das matas, o amarelo das riquezas aqui produzidas, o azul do céu e o mar, o branco da paz, sendo devastada e alastrada nos obrigando a inalar a rotina do medo, a rotina que corrói, e transforma nossos filhos em máquinas que de suas terras destroem.
Sem essa terra não há pulmões para o mundo respirar, não há precisão, tão pouco teremos contentamento para superação.
Hoje não rezarei ao meu santo nem farei minhas preces, pois o que me faz ser humana é não ter medo de abraçar a terrinha que anda descalça, te olha com empatia, esboça alegria nas situações mais árduas. Vou pegar nas mãos calejadas da terrinha e convidá-la para dançar ao som da congada. Vou levá-la as dunas de Sergipe e lhe apresentar Tieta. Vamos rodar no totem de fitas até ficarmos tontos. Vamos correr da mula sem cabeça e dar uma pausa para comer o tutu de feijão da vovó Maria. Vamos grafitar os muros das grandes metrópoles, vamos tirar as balas e trocados dos meninos de faróis e levá-los conosco para dançarmos um maracatu, para jogar uma pelada na rua e brincar de cobra cega. Vamos beber um quentão e bailar até o dia raiar. Vamos ornamentar a rua principal para Corpos Crist passar.
Depois pegaremos nossos guardas chuvas e de lá do coreto ouviremos os músicos virem a todo vapor na melodia do frevo.

E você está convidado a participar…