Rua das poeiras, 1960

 


Aquelas ruas…

Que hoje eu ando carregam as mãos dos meus ancestrais.

Carregam o abandono de homens perdidos

Aguardam a volta dos filhos que um dia voltarão para revê-las.

São as protagonistas das tragédias e das comemorações entre amigos.

Aquelas ruas…

Que hoje não são mais feitas de pedras, só algumas.

Causando na rua um grande alvoroço, camisas e sapatos foram atirados da janela

Certo dia galhos e trovões entraram em conflito com as pobres ruas

Colheres de pau, martelos,  pratos,  panelas

Pobre destino…

A pergunta que ontem queriam calar hoje é afirmação

Os filhos que não foram enterrados as ruas sabem por onde passaram

As ruas são amigas, são margaridas, são poeiras levadas ao vento.

Elas não julgam, elas cantam canções.

As ruas só querem atenção.

Para o tempo perdido

 


Veste o paletó, veste o vestido, veste o sapato, veste as meias, a camisa, os calções, o cinto, veste o pijama. Não veste.

Passa perfume, passa pó, passa lápis, passa máscara, passa disfarce. Apareça sem medo.

Fala grego, fala gíria, fala com os olhos, fala teorias, fala fórmulas, fala pra quem ouve, fala pra calar, fala pra persuadir, fala com as mãos,  fala quantos, fala quem. Não fale, ouça.

O mundo acorda com pressa, sem sono, sem dono e sem direção. Pare.

O tempo, dono de todos aqueles que suaram por sonhos e planos, não pode andar para trás, mas pode cicatrizar as feridas que ficaram. O tempo, pode estender as mãos aos desamparados, mas pode também olhar por todos com olhos de ressaca e se certificar que toda a fortuna que acumula vale mesmo que os sonhos perdidos. Somos sustentados por nossa fé que nos mantém no alto do horizonte. Os heróis da vida também choram… Um pedaço de uma história foi embora com o mar. As cirandas nas praças viraram poeira ao ar e grandes palácios em nossa memória. Nem o tempo, nem as palavras e toda riqueza do mundo pode tomar: As lembranças de um tempo que não volta, mas que vai morar eternamente dentro de nós.