Um papel de todos

 

 


Marley, é um rapaz de classe média urbana, nascido em São Paulo no ano de 1970.Quando pequeno, trancado em seu apartamento, ficava assistindo televisão enquanto sua mãe se ocupava com os afazeres domésticos.

Seus desenhos preferidos eram: Scooby Doo, Tom e Jerry, Mickey e seus quadrinho eram o Batman, o Spider Man e o Super Homem.

Hoje, seu filho de dez anos assiste ao Cartoon e sua filha de 14 adora a Demi Lovato e já leu e assistiu a todos os filmes da saga Crepúsculo. Sua mulher compra todos os meses um produto da polishop e agora disse que vai comprar um maiô que deixa as curvas mais bonitas do Doctor Ray.

Essa semana Marley vai fazer um empréstimo no banco para comprar uma televisão de 42 polegadas e pagar a viagem dos sonhos da filha para a Disney. Antes de passar no banco, ele precisa ir ao shopping comprar um tênis para o filho e um novo i phone para ouvir indo para o trabalho.

E quem é Marley?

Bom, Marley é um rapaz de 40 anos de idade que mora na maior cidade do Brasil, onde ele e sua família, como muitas dessa geração, são os filhos, geração e produto de uma invasão cultural e um sistema linear.

Num país que é finito, não podemos viver num sistema linear, pois interagimos com diversas culturas, religiões, economias, políticas e sociedades. Nesse sistema existem falhas que vai da política e se estende na mentalidade do usar e jogar fora.

As pessoas vivem e trabalham ao longo desse sistema onde algumas são um pouco mais importantes do que as outras. Algumas têm um maior poder de decisão, como o governo. A função do governo é olhar por nós, cuidar de nós, porém o que vemos na maioria das vezes são escândalos políticos, cenas de corrupções, desvios das verbas públicas e a preocupação verdadeira é com o bem estar das corporações e o bem individualista.

Pagamos impostos para um asfalto mal feito, onde a placa na rua indica um gasto de 3 milhões de reais. Pagamos nossos impostos para encher os tanques dos militares, para enfrentar filas enormes em hospitais públicos, para nos depararmos com crianças pedindo esmolas nas janelas dos carros, para multiplicar o investimento no mercado armamentista, para alimentar o tráfico de drogas, de órgãos, de prostituição. Pagamos nossos impostos para não enxergar a injustiça social, para milhares de crianças e adolescentes deixarem as escolas, o conhecimento, para pegar em um machado e trabalharem nas lavouras.

Uma televisão talvez tenha sido montada por uma criança no México, seu plástico deve ter sido retirado da China, o metal na África do Sul e o petróleo no Iraque. Marley, personagem do início da história, não irá pagar na televisão que comprou.  Não irá pagar o custo da matéria

prima retirada, da exploração de crianças, da destruição e impacto ambiental na produção e liberação de toxinas das fábricas de eletroeletrônicos.

Quando pequenos, nossos pais sempre nos ensinaram a compartilhar o que era nosso, a sermos generosos. E o que fazemos depois de adultos?

Um jovem morador de rua um dia me responder que se tivesse muito dinheiro ele ajudaria sua família e daria roupas, alimentos, remédios, moradias, amor e carinho para outras pessoas que também não têm. Então por que alguém que não tem nada ainda deseja compartilhar, enquanto nós que temos de tudo insistimos em ser tão individualistas?

Aposto que nossos pais quando tinham a nossa idade não tinham as mesmas preocupações que as nossas. Hoje, tenho medo de respirar oxigênio, pois o ar é poluído e cheio de tóxicos. Tenho medo de ter um filho e ele não ter mais a mesma oportunidade que eu tive de saber e ver uma floresta, biodiversidade, um ecossistema, ver o céu azul e nadar nas águas do mar. Tenho medo da terra tremer, das ondas dos oceanos e das bruscas tempestades  invadirem a minha casa e da fúria da mãe natureza contra mim.

Em 1500, o país não só foi dito como descoberto, mas seria a partir daquele momento que ele não seria mais a terra de Pindorama, mas a terra do ponto de vista dominado, submetido, o que chamamos hoje de terceiro mundo.

Paul Brasil, ouro, café, cidades, indústrias…

Nós sustentamos o modo de vida que não é nosso. Encaramos a cultura européia como sinônima de evolução e até hoje nos anestesiamos para outras artes, literatura, tecnologia, lazer etc.

Só na Amazônia  perdemos 2 mil árvores por minuto para sustentar  grandes fazendas agrícolas e pecuárias. Plantamos arroz e feijão de melhor qualidade para ir para a mesa dos gringos. Alimentamos e adestramos os melhores gados para ir ao prato de gringos. Nessas mesmas fazendas são investidos milhões de reais, destruído milhões de florestas e exterminados milhares de famílias indígenas, raiz e sangue dessa pátria.

As pessoas precisam vender e comprar todo o lixo de substancias tóxicas o mais rápido possível em constante movimento, pois é essa rapidez que gera e mantém a bolsa e a economia do país em grande nível.  E a cada ano um novo modelo de carro, de eletroeletrônicos, de roupas, é fabricado para atrair mais consumidores.

Vemos nesses comerciais anúncios de produtos que supostamente você deveria comprar para lhe tornar um ser mais feliz e completo, caso contrário será inteiramente banido da sociedade.

Temos uma política do trabalhar, ver e pagar. Temos mais coisas do que tempo para sermos felizes.

Vivemos num sistema em crise e é preciso que todos nós enxerguemos isso.  Em vez da justiça se preocupar com a maioridade penal, ela deveria estar agindo nesse sistema falho para que a criança e o adolescente não tenham a necessidade de recorrer ao crime para se integrar socialmente, financeiramente e culturalmente.  Em vez do governo sujar suas mãos de

petróleo e esbanjar orgulho do mal que é feito ele poderia investir esse dinheiro em educação para todos de qualidade, projetos sociais e ambientais, na saúde pública e nas necessidades básicas da população.

Há quem diga que é irrealista idealista e que não pode acontecer, mas eu digo que quem é irrealista é aquele que quer continuar no velho caminho.

Precisamos nos livrar da mentalidade do usar e jogar fora, vamos fazer uma nova escola de pensamentos baseada na sustentabilidade e equidade, energia renovável, economias locais vivas, mais intervenção de jovens em todas as áreas, química verde, zero resíduo, uma sociedade alfabetizada, crítica, organizada e um governo que possamos ter orgulho de nos representar lá fora.

Não é como a gravidade que temos que conviver. As pessoas criaram esse sistema e nós também podemos mudá-lo. Por isso vamos criar algo novo, estudar e saber a vida dos nossos políticos, exercerem a verdadeira cidadania e fazer um país e um mundo melhor a cada dia.

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