Utopia não vivida


Logo após realizar a leitura ‘’1968 O Ano Que Não Terminou’’ do jornalista Zuenir Ventura, nós nos sentimos rodeados numa atmosfera de paixão, impulsividade, utopia não vivenciada com um espírito de transformação, pois foi um ano em que o Brasil era governado por um regime militar autoritário que decretou o fim da liberdade de expressão dando lugar à censura e a perseguição daqueles que fossem contra o sistema.

É fundamental notar que após o golpe militar o país não seria o mesmo. Melhor dizendo, após a decretação do Ato Institucional número 5 que trouxe plenos poderes ao governo e acabou com uma serie de liberdades individuais, a sociedade sofreu transformações positivas e negativas.

A geração de 68, principalmente aqueles que lutaram contra a ditadura, foram para a prisão, para o exílio, morreram e deixado heranças boas e negativas, sendo a última exemplificada pelas drogas que representaram aos jovens o caminho para a ampliação do conhecimento, do autoconhecimento, da expansão da consciência, todas aquelas ilusões e o que se observou é que as drogas são um instrumento de morte e hoje é dominada por multinacionais, uma grande fonte de renda ao país e um dos negócios mais rentáveis do mundo.

Nota-se por outro lado a herança boa que a geração de 68 deixou.  Os nossos ‘’heróis’’ foram os jovens que cresceram deixando o cabelo e a imaginação crescerem. Eles amavam os Beatles e os Rolling Stones.  Protestavam ao som de Caetano, Buarque, Vandré. Viam Glauber e Godard, andavam com a alma incendiada de paixão revolucionária e não perdoavam os pais reais e ideológicos por não terem evitado o golpe militar de 1964. Era uma juventude que se acreditava política e achava que tudo deveria submeter ao político: o amor, o sexo, a cultura, o comportamento. Segundo Zenir Ventura, jornalista e autor das obras ‘’1968, o ano que não terminou’’ e ‘’1968 o que fizemos de nós’’. ‘’Houve muitas conquistas na época, sobretudo no plano do comportamento, a condição feminina avançou muito. Não digo o fim do autoritarismo, mas houve  um pouco a desmoralização do autoritarismo nas relações entre marido e mulher, entre professor e aluno, entre pais e filhos. Acho que é no plano do comportamento que você vai encontrar o que 68 tivemos de melhor. Fizeram realmente uma revolução não apenas política, mas também comportamental… ’’

Em suma, uma simples arqueologia dos fatos pode dar a impressão de que esta é uma geração falida, pois ambicionou uma revolução total e não conseguiu mais do que uma revolução cultural. Arriscando a vida pela política ela não sabia, porém, que estava sendo salva historicamente pela ética. O conteúdo moral é a melhor herança que a geração de 68 poderia deixar para um país cada vez mais governado pela falta de memória e pela ausência de ética.